17.9.08

Mais pra mais do que pra menos

Se eu alguém mais me disser que o Ensaio sobre a Cegueira, do Fernando Meirelles, é "mais ou menos" vai ter que me dar argumentos convincentes. Eu gostei, ok? E gostei bastante. E parece que as pessoas ficam meio com receio de dizer que gostaram. Todo mundo fica esperando a resposta do outro. Daí alguém solta um "mais ou menos", o outro concorda e assim fica tachado o filme. Muito injusto, ok?
Mas já que vocês insistem tanto... vamos falar dos pontos negativos do filme. Por exemplo, por que, diabos, escolheram o Mark Ruffalo para o elenco? Por quê, meu deus? Por quê? Será que só eu acho ele um cara tão sem-sal-sem-açúcar? Ele mantém a mesma expressão do início ao fim do filme e não estou falando só desse filme! De início dá um pouquinho de dá, "tadinho, ele deve sofrer tanto na vida". Mas, por favor, o Ensaio sobre a Cegueira poderia ser melhor se não fosse por ele. Vamos combinar.
Agora quero só que imaginem como deve ser difícil fazer uma produção tão abstrata e ainda de um best-seller do Saramago. Todo mundo sabe que sempre chovem críticas às adaptações de livros, peças e biografias. Certo? Pois o Saramago gostou, ou, ao menos, fingiu que gostou. E, de verdade, eu li o livro e não me frustrei nenhum pouco com o trabalho do Meirelles. , são personagens sem nomes, lugares que podem ser qualquer um, mas que na verdade não existem! São tantas metáforas, críticas e situações reflexivas que poderiam ter se perdido na adaptação cinematográfica. Mas não. Meirelles fez um ótimo trabalho. Dá uma olhada na reação do Saramago ao ver o filme pela primeira vez:

E se liga na apreensão do Meirelles

Em Ensaio sobre a Cegueira, as personagens são complexas e, ao mesmo tempo, não há espaço para expô-las totalmente ao espectador. O nome não importa. A partir daí já fica difícil montar as personagens e não se perder num emaranhado de histórias. Ninguém no filme (e no livro) é mau por ser mau ou bom por ser bom. É verdade sim que o mau é assustadoramente mal. E Gael García Bernal fez um bom trabalho. Está de dar medo. Nada a reclamar também da Juliane Moore.
Muitos acharam o filme forte, deprimente ou com cenas pesadas demais. Talvez seja mesmo. Porém, eu estava esperando pior. Sabe-se que Meirelles cortou algumas cenas por reclamação dos cinespectadores durante os testes de exibição. Principalmente da parte dos estupros. Pesado. Estupro é sempre pesado. A própria palavra já soa grosseira e deprimente. Então não se pode colocar a culpa no diretor ou mesmo no roteirista. É a história. É Saramago.
A fotografia é esplêndida. César Charlone tratou muito bem da dilatação da luz, dos objetos e cenários claros. O resultado é uma produção de fotografia que carrega o próprio caráter do filme. As filmagens foram feitas em São Paulo, Ontario e Montevidéo. Quem conhece São Paulo reconhece as ruas, os viadutos e pontes. No entanto, São Paulo de Meirelles é só mais uma cidade qualquer. Placas em inglês, ruas que poderiam ser em qualquer lugar do mundo. O mundo de Saramago é assim, abstrato, metafórico, simbólico e deprimente.
Preciso deixar registrado também que o ator que interpreta o menininho do filme é a cara do meu irmão caçula, o Guilherme. Se forem fazer uma continuação do filme (deus que me livre) e o Mitchell Nye não topar, bota meu irmão lá. Ninguém vai notar a diferença. Fica a dica.

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