13.10.08

A Última Parada de Bruno Barreto

Eu decidi que não vou mais assistir a um filme e logo depois palpitar sobre. Preciso de uns dois dias para digerir o que vi e ouvi. E isso faz mudar bastante as coisas dentro da minha cabecinha. Violência Gratuita foi assim. Mas a coisa esfriou tanto na minha mente que eu decidi que era tarde demais.
A bola da vez é o Última Parada 174, o filme do Bruno Barreto que pode concorrer ao Oscar. Ou não. Mas daí já merece outra discussão. O fato é que sexta eu assisti a cabine e o debate com o Bruno. Logo após o filme eu estava até bastante impressionada. Mas, no fundo, é sim mais um filme sobre violência. Real ou não. É mais um desses filmes que pode ter como chamada: "As pessoas não nascem podres, a sociedade que as torna podres". E blablablá.
O mais engraçado é que, por uma feliz coincidência, eu assisti ao documentário Ônibus 174, do José Padilha, uns minutos antes de ver a ficção de Barreto. E nada ficou mais evidente do quanto a produção de Barreto é sim uma ficção. Sandro Nascimento não é então um simples marginal, ele é uma pessoa com uma história de vida, e, mais do que isso, uma personagem.
Nessa transformação do real em personagem, o diretor, com o roteirista, Bráulio Montovani, acertaram em cheio na construção de Sandro Nascimento. As pitadas de ficção não podem ser esquecidas de maneira nenhuma. Caso o contrário, corre-se o risco de taxar o filme de falso. Última Parada 174 não é um filme sobre o sequestro do ônibus no Rio de Janeiro, não é um filme sobre os fins, mas sobre os meios.


As relações de cumplicidade entre os personagens e a atitude repressora dos órgãos públicos são partes presentes do enredo. Os traços da vida na favela, como a forte presença da igreja, são detalhes que nos conscientizam do caráter ficcional da obra. Há uma montagem de cenário, no trânsito da periferia com a vida no centro do Rio de Janeiro - com forte ênfase nas histórias de garotos de rua e seus sonhos construídos e destruídos.
Bruno Barreto não fez nenhum pouco de questão de ser fiel às imagens reais do sequestro. Ele enxugou a tragédia em si e deu mais destaque à história, criando uma relação emocional e não só intelectual por parte do cinespectador. Como o próprio diretor disse, Última Parada 174 é "o ponto de vista do ser humano", o que vale no enredo é "a condição humana, e não a condição social". Quanto a isso, Barreto admitiu que o Última Parada 174 é "emocionalmente mais violento" do que os filmes brasileiros do mesmo naipe.
A utilização de atores não-profissionais, com roteiros sem fala, em que há espaços para que os próprios atores preencham, é sentida durante a projeção. Barreto declarou ainda que "a ficção tem mais necessidade de ser verossímil do que o documentário". E que sua escolha foi por uma não-espetacularização da violência. De fato, como disse o cineasta, "se há lágrima, emoção, ela é legítima e não manipulada".
Última Parada 174 é baseado em fatos reais. Mas até aí Cidade de Deus, Era Uma Vez, Tropa de Elite, etc também são baseados em fatos reais, de um modo ou de outro. A diferença é que o filme de Barreto tem um personagem conhecido pela mídia, Sandro Nascimento. Última Parada 174 utiliza de uma história real e da licença poética para construir mais um enredo sobre violência e injustiça brasileira. Mas não é por que é mais uma que a história tem que ser ignorada ou subjugada.
Se há repetição ela não é maléfica, ao contrário, é uma comprovação da evolução de identidade que o cinema brasileiro conseguiu atingir. Se, de fato, o cinema é uma legítima forma de expressão e reflexão, já é tarde demais para lutarmos contra o que o cinema brasileiro hoje projeta ao mundo - a não ser que estejamos aptos a lutar contra nossa própria realidade. (O que não é o caso).

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