26.3.08

A velha (e elegante) fórmula

Quando eu era pequena (criança, pra evitar piadinhas sem graça) eu pirava em filmes de terror. Não que agora eu os tenha deixado de lado, mas eu realmente era louca pelos filmes sobre o sobrenatural. Poltergeist sempre foi uma grande paixão. Adorava qualquer porcaria no estilo de O despertar dos mortos e A hora do espanto. Tinha sempre a impressão de que crianças dormiam no meu armário e animais mortos-vivos moravam embaixo da minha cama. E, pode soar meio doentio, mas eu realmente adorava a idéia de ouvi-los conversar enquanto estava sozinha no quarto. Até que O iluminado mudou a minha vida. (Nota mental: tema para um próximo post).
Eu me lembro de, em pleno verão, enrolar-me até a cabeça no cobertor, tampar os ouvidos com o travesseiro e ficar paradinha, com medo de que "eles" viessem. E assim Kubrick fez com que tudo desde A casa na colina, A bruxa de blair e Uma noite alucinante 3 fosse pura piada. Minhas amigas gritavam e choravam de medo (e ainda o fazem) de qualquer filminho. Já eu, não conseguia sentir quase nada.
Daí veio Sexto sentido e eu voltei a me abalar. Os outros deu só uns pequenos beliscos. A verdade é que a fórmula criança-esquisita-vendo-coisas tem um poder de efeito consideravel em mim. Recordo-me de coisas que já não sei se existiram ou não, de qualquer forma, são lembranças que mexem com o meu inconsciente; o que todo bom filme de terror deve fazer.
Oito anos depois de Sexto sentido, mais especificamente na 31º Mostra Internacional de Cinema, eu li a sinopse de O orfanato, vi o nome de Guillermo Del Toro, e pensei: "Ah, cara, esse filme sim parece valer a pena". Então, enquanto as outras pessoas faziam filas e mais filas para ver filmes bem indicados pela Folha, como Vocês, os vivos, eu fui assistir a uma sessão mais ou menos vazia de O orfanato. E quando falei bem do filme depois, as pessoas me olhavam desconfiadas. Tá, tá, não é lá grande coisa. E só fui descobrir isso quando asssiti ao filme pela segunda vez, nesse final de semana. Porém, tenho que admitir que é um filme pela qual há tempos estava esperando.
O roteiro do espanhol Sergio Sánchez não é lá a coisa mais original do mundo. Casarão mal-assombrado, crianças com amigos imaginários, segredos macabros, desenhos infantis assustadores, desaparecimento inexplicável, barulhos pertubadores, velhinha caduca, marido cético... Um prato cheio para quem sabe apreciar um bom filme de terror. E é isso... o diretor do filme, o catalão Juan Antonio Bayona, não se permite sair do clichê mas é muito competente no que pretende.
A historinha gira em torno de Laura (Belén Rueda) que volta ao orfanato onde foi criada, para assumir uma espécie de retiro para crianças especiais. Daí que coisas estranhas começam a acontecer e o filho dela, Simón (Roger Príncep) desaparece, para o desespero da mãe. A partir daí não tente adivinhar os sustos do filme, só te manterá tenso durante toda a projeção. Afinal, essa é uma das boas sacadas do filme: guardar os sustos para os melhores momentos (e os mais inesperados).
As movimentações de câmera e a fotografia são muito bem trabalhadas. Há elementos pertubadores a la Hitchcock e um sentimento nostálgico tomou conta de mim. Algo no estlio, "se não pode ser tão bom quanto ele, aprenda e faça bom uso, amigo". É o terror puro, a tensão despertada pelo suspense e não por sangue e tripas.
A trilha sonora também é bastante pertinente, num estilo infantil macabro. A cena da brincadeirinha "Um, dois, três, bate na parede" é o ponto alto do filme, na minha opinião. Estupendo! Uma das cenas de maior intensidade na história das produções de terror desse século. Há sim, em O orfanato, um ar meio Del Toro, meio Os outros. Há aquela lacuna, típica de O laubirinto do fauno, para agradar aos céticos, permitindo livre interpretação do que é real e imaginário no filme.
E, gente, ainda tem a participação superespecial de Edgar Vivar, o senhor Barriga do Chaves, manja? Ah, vai, só essa já te compensa a ida ao cinema numa tarde de quarta, quando é mais barato, combinado?

18.3.08

Aluga-se banheiro

Carnaval de 2008. São Luiz do Paraitinga, cidadezinha histórica a 171 km de São Paulo. São Luiz é uma cidade com cerca de 10 mil habitantes. Nesse carnaval, recebeu 13o mil! Em sua maioria, jovens sedentos por marchinhas, bebidas alcoolicas e pegação. Num casebre muito mal-acabado com cerca de uns vinte e tantos adolescentes aproveitando a folia, a água acaba. Ok, quem precisa de água quando se tem vodka?Beleza então, vamos pra gandaia.
Dia seguinte, seis da manhã. Todo mundo quer ir ao banheiro, tomar banho, escovar os dentes. O que fazer? O problema é na caixa d´água, logo, serão quatro dias sem um pingo d´água. Um bando de playboys agitados que pagariam qualquer quantia por um banheiro decente. Sim, vamos alugar um banheiro!
As casas da redondeza são bem simples. Os moradores são um tanto quanto humildes e receptivos. Principalmente quando recebem trezentos contos para alugar o banheiro durante o carnaval. A senhora da frente aceita a oferta com um sorriso enorme nos lábios. O banheiro não tem tranca, amarra-se um fiozinho na porta e num prego na parede. Não há box, então a espuma do banho espalha-se pelo banheiro inteiro, passando até por baixo da porta.
Agora, Dona Maria pode comprar verduras para o mês. E quando o netinho descalço pede bolacha, ela dá uma nota de cinco reais e fala para ele também comprar todynho. A criança sai pulando. As filhas de Dona Maria falam de comprar chinelos novos. E todo mundo fica feliz. E nós, profundamente aliviados por ter um banheiro. Viva Dona Maria!


Contei essa historinha, baseada em fatos reais, para provar que alugar um banheiro não é uma idéia totalmente fora do normal. E é a partir dessa idéia mirabolante que se sustenta O banheiro do Papa. O filme é uma co-produção Brasil e Uruguai, e a estréia esplêndida na direção de César Charlone e Enrique Fernández. O roteiro, dos próprios diretores, é baseado na visita de João Paulo II, em 1988, à cidade de Melo, no Uruguai. A visita do papa traz esperança de bons negócios para a população. Linguiças, pastéis, sanduíches, bebidas, medalhinhas. Beto (Cesar Trancoso, o sósia do meu porteiro), um dos humildes moradores da cidade decide construir um banheiro na frente da sua casa para vender seu uso durante a visita do Santíssimo. Afinal, os milhares de peregrinos precisarão ir ao banheiro em algum momento, correto?
Religiosamente realista e ingenuinamente otimista. Atento à cada detalhe, O banheiro do Papa constrói-se. Os preparativos, os planos, a empolgação dos moradores de Melo muito me lembraram São Luiz. Lá eles também esperam pela chegada do carnaval e seus visitantes durante um ano. Economizam tudo que podem para "enriquecer" nos dias de folia. Sei disso porque conversei com o tiozinho das pingas caseira. E ele me contou o quanto os moradores de São Luiz empenham-se em deixar tudo pronto para a chegada do carnaval. A diferença é que eles, ao final do filme, não ficam frustrados.
O banheiro do Papa passa-se em uma terra onde sonhos são incomuns. Uma terra em que não há espaço para planos e vive-se de acordo com o que o destino permite. Lugar onde se vive para sobreviver e grandes acontecimentos são raríssimos. Tão simples quanto profundo, tão triste quanto cômico. O banheiro do Papa é sobre a única coisa que resta às comunidades pobres: esperança. E isso ninguém tem o poder de privar de ninguém.

10.3.08

O que vale é a intenção (?)

Um filme de poucas palavras e muitos olhares, é assim que defino XXY. Os personagens falam entre si e com o público com muito mais feições do que palavras.
É um filme sobre o dilema sexual de Alex (Inés Efron), um garoto que nasceu com características de ambos os sexos. Um garoto?! Bem, de início, Alex vive como uma garota, que toma remédios para deter seu desenvolvimento masculino. Mas na verdade pessoas que sofrem da Síndrome de Klinefelter são indivíduos do sexo masculino que têm um cromossomo X adicional (por isso XXY, sacou?) e por isso desenvolvem seios e têm testículo menos desenvolvidos. Conversando com a minha mãe, descobri que o que a personagem no filme tem é, na verdade, pura e simplesmente, hermafroditismo. O que quer dizer que tem algo de errado com o título, porque a Síndrome de Klinefelter trata de disturbios no sexo e não ambiguidade sexual, entendem? Bem, isso não vem ao caso.
Voltando ao filme... Enquanto moram na costa do Uruguai, os pais tentam manter Alex afastada do preconceito daqueles que, sabem eles, não são capazes de compreender e aceitar a menina. Ricardo Darín (do Filho da Noiva e Clube da Lua, sabe?) interpreta o pai de Alex que quer defendê-la a qualquer custo, até mesmo do médico especialista em estética que a mãe de Alex chama para examiná-la. O desespero do pai ao ver o sofrimento de Alex é muito comovente na interpretação de Darín. Porque o pai não sabe que posição tomar, o que dizer, nem se deve dizer algo ou deixar que a filha escolha sua sexualidade sozinha. Ou seja, o típico papel de pai de adolescente.
Assim, um médico vem de Buenos Aires examinar Alex e traz com ele a mulher e o filho, Alvaro, de 16 anos. Daí rola, obviamente, uma atração sexual entre Alex e rapaz. Não achei que essa relação foi bem desenvolvida, nem sensível, como haviam me dito. Há angústias, conflitos, dúvidas em todo o enredo. Às vezes, parece que a trama não flui, é carregada. Mas o assunto é tão corajoso que a gente dá um desconto.
A produção argentina de Lucia Puenzo trata de um assunto pesado de uma forma singular. Há vários simbolismos na obra; peixes-palhaços hermafoditas (viva a Discovery Channel) e uma conversa sobre castração seguida de uma cena em que a mãe de Alex aparece cortando cenoura. Além do fato do pai de Alex ser biólogo e o de Alvaro, cirurgião. É sangue e mutilação subentendido em tudo. Assim, da leveza das alusões, o filme acaba caindo na agressividade do discurso.
Outros pontos baixos da produção, na minha opinião: Puenzo não detalha a relação conturbada do médico com o filho, mas, num diálogo mal-encaixado no filme, discute a rejeição que Alvaro sente vinda do pai e deixa no ar a escolha sexual o rapaz. Achei forçado. Muitas outras cenas poderiam ficar subentendidas e não serem ilustradas também. A decoração no quarto da menina, os desenhos em seu caderno, tudo leva a pensar na ambiguidade sexual de Alex. Puenzo coloca a personagem em todas as situações possíveis a fim de representar o dilema da garota. Seria ótimo para uma aula de exposição para alunos de psicologia. Já nós, humildes cinespectadores, ficamos enfadados.
Sim, hermafroditismo é um tabu, assim como aborto, homossexualismo e pedofilia, então é um assunto de difícil tratamento. Porém, não é impossível de fazer um bom trabalho, vide 4 meses, 3 semanas e 2 dias. O que faltou foi um pouco mais de pesquisa do caso, de seus limites de explicitação e do melhor enfoque a ser dado. Se um diretor não está preparado, é melhor não fazê-lo. Lúcia Puenzo pareceu desesperada em ser autêntica e acabou por ser pretensiosa. Dissecou o filme sem necessidade.
XXY foi o filme indicado pela Argentina para a disputa do Oscar de filme estrangeiro de 2008. Eu, particularmente, não escondo de ninguém minha paixonite por filmes argentinos (e pelos próprios cidadãos argentinos, convenhamos). Por isso estava esperando mais dessa produção. Frustei-me, mas, digamos que, valeu a pena.
Sinceramente (como diria minha profa. Petta), o tema é bom, mas a pauta poderia ser melhor. Ou seja, bato palmas para o enredo, mas XXY merecia um roteiro (e um título) melhorzinho. Fica a dica, hermanitos.

7.3.08

O mundo em P&B

Persépolis era a antiga capital do Império Persa e localizava-se no atual Irã.
É o ano de 1978 em Teerã. O início da nova República Islâmica inaugura a época dos “Guardiões da Revolução”. Em meio ao sonho de se tornar uma profetisa do futuro para salvar o mundo, Marjane, de oito anos, acompanha a queda do xá e as consequências que o novo regime traz para a sociedade.Uma história em quadrinhos. Quer uma maneira mais simples de contar uma história tão complexa quanto essa? Persépolis é singela e, ao mesmo tempo, muito profunda. Afinal, são desenhos que contam agonias reais. O filme dirigido pela Marjane Satrapi, autora dos quadrinhos, e Vincent Paronnaud, é um retrato do mundo, e de suas vítimas. Satrapi toca em pontos delicados, mas discretamente. Estupro, morte, presos políticos e execução ganham contornos em traços fortes de preto. Porém as agonias se dissolvem no humor e na simpatia da pequena Marjane.
Marjane me lembrou bastante de Ana, de A culpa é do Fidel. É o mesmo espírito infantil revolucionário, de constentação, curiosidade e dificuldade em se acostumar com as mudanças que a história impõe na vida das crianças. As perseguições e repressão a membros da família são pontos em comum das duas meninas. A vida entre uma família de intelectuais esquerdistas não é nada fácil, já provaram Marjane Satrapi e Julie Gravas.
Porém, mais do que isso, Persépolis desenha em nossas mentes o medo constante que vivem as famílias em países em guerra. Encanta por dar rosto, história e vida a tantas crianças que sofreram e sofrem com a falta de liberdade e de expressão. Há muitas Anas e Marjanes no mundo. Os conflitos íntimos de Marjane não podem ser considerados clichês por serem comuns. Há muitas garotas iranianas com sonhos e ideais próprios, entretanto, a repressão as impede de alcançá-los, assim como a desigualdade social impede as crianças brasileiras.
Persépolis não se força a ser tocante, adotando um ritmo certo nas passagens de conflitos universais a dilemas pessoais. Admito que achei a passagem da vida de Marjane muito mais interessante do que sua fase de adolescência alternativa que se passa, em grande parte, na Áustria. Sexo, drogas e rock´n roll, claro. Além da dificuldade em viver longe de sua identidade verdadeira. A alienação que Marjane vive em Viena chega num ponto que incomoda e faz a garota, agora já moça, a voltar para suas raízes. Assim, a moça vive com seu país e religião uma relação de amor e de agonia. O uso obrigatório do véu, por exemplo, a faz sentir reprimida dentro de seu próprio país. O amor à seu país, ao final, não supera a impossibilidade de se viver nele.
Contudo, o universo emocional da autora não romantiza o desenho. Sem traços heróicos, Marjane assume uma postura longe do conformismo adulto. Talvez porque ela, como Ana, tenha conhecido o antes e o depois. O colorido e o P&B.