29.5.08

Cidade Partida

Pareceu até que eu abandonei o blog definitivamente, né. Mas não. Não que eu tenha algum tipo de compromisso com esse blog. Do contrário. Quando criei foi apenas com a intenção de ter onde anotar alguns pensamentos sobre filmes que vi durante a minha vida. No entanto, nessas duas semanas tenho sido uma irresponsável. Tenho que admitir. Mas prometo me esforçar para não repetir esse erro. Uma vez por semana, no mínimo. Esse é o trato. Entre mim e o Corvo. Valendo...



Pois então... eu não deixei de ir ao cinema nessas últimas semanas, claro que não. Queria até fazer um post com minhas notas sobre Pecados Inocentes. Mas elas já estão frias demais na minha mente e o filme não merece um fichamento. Definitivamente. Só digo isso.
Vou falar então sobre um filme brasileiro que está para estreiar dia 25 de julho. Eu assisti uma pré-cabine com o filme nem finalizado ainda. Trata-se de Era uma vez, o novo filme de Breno Silveira, diretor de Dois Filhos de Francisco (sim, aquele fenômeno de bilheteria com a história do Zezé de Camargo & Luciano).
A história é um conto de fadas, como o próprio título indica, de um cara pobretão que mora no Morro do Cantagalo e uma garota riquinha que mora na orla de Ipanema, no Rio de Janeiro. De início tem tudo para ser um romance engraçadinho, com algumas cenas mais chocantes, coisa e tal. Típico da realidade do morro, manja rapá? Mostra bem aquela velha história da dimensão paralela, da terra sem lei, do rapaz bonzinho com ótimas intenções. O filme é lotado de esteriótipos, essa é a verdade. Tem a pobre menina rica, o surfistinha carioca, o ex-namorado escroto, o pai super protetor, o traficante malvado.
É um filme para não levantar grandes reflexões. Não dá para ficar imaginando como um cara que vive numa favela, num ambiente tão hostil, com um passado tão traumatizante, seja tão bonzinho e tão comportado. Já a classe alta carioca é retratada lotada de hipocrisia, de conveniências, corrupção e vícios. Na minha opinião a mocinha (cujo nome esqueci) é só um retrato plano de uma patricinha incompreendida, inconseqüente e que vê no rapaz pobre um espaço de fuga de aventura de risco. É bem aquela história de quem tem tudo, mas quer o que não tem.
Os ambientes representados também são grandes clichês. É o baile funk carioca e o lual para os riquinhos. O único espaço de socialização entre as duas dimensões é a praia. Mesmo que o rapaz pobre vá lá pra trabalhar e a mocinha rica para paquerar surfistinhas e ler (nota para o livro Cidade Partida que a personagem aparece lendo - metalinguagem barata) . O filme em si representa o sonho a la Globo. Eles querem fugir juntos. E tudo teria dado certo. Talvez até o final teria sido menos mal se parasse por aí.
Em geral, o filme é um enorme clichê. Ou pedacinhos de outro filmes batidos no liquidificador e levados ao forno. Tem Carandiru, tem Cidade de Deus, tem Tropa de Elite. Se eu não parasse para reparar nos detalhes que tornam o filme cada vez mais clichê, como o bigode toddynho do mocinho, a estátua de São Jorge na casa do traficante e as tais passagens pra Europa, entre outros, eu não teria ficado tão irritada. Mas eu detesto novela, e isso já eliminou qualquer oportunidade de apreciar Era uma vez.
Tenho que admitir que eu talvez esteja sendo um pouco cruel com a crítica ao filme. Não é o tipo de roteiro que faz o meu tipo, a própria sinopse deixaria claro. Mas é um filme que faz o gosto de boa parte dos brasileiros. Seja por vontade minha ou não. Sinceramente, prefiro que assistam um enlatado brasileiro do que um hollywoodiano de merda. Não que eu seja contra hollywoodianos, do contrário, acho que são os filmes com a melhor produção - proporcional à grana que eles investem.
Sinceramente, acho que o Breno errou feio mesmo foi no final. Ele caiu do Romeu e Julieta. Mas no Romeu e Julieta sem pé nem cabeça. Dava pra fazer uma edição e salvar um pouco o filme. Mas quem sou eu pra optar. Afinal, faço jornalismo, lembra? Acho que agora é só torcer pelo cara, para o público aceitar, senão Era uma vez...

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Acabei de voltar de uma conversa com o Breno, o diretor, e o Thiago, o ator principal. Primeiro, fico feliz que o Breno tenha decidido fazer algumas boas mudanças no filme. E fico mais feliz ainda em saber que existe um dedinho meu e de mais alguns agentes da Brazucah na nova edição que ele fez. E, a propósito, disseram que melhorou bastante o filme.
Fora isso, o depoimento sobre o Breno Silveira sobre o filme me comoveu. Realmente o filme era um sonho pro cara antes de 2 Filhos... e você tem que ver como ele fica empolgado em falar do Era uma vez. Pô, deu até dó.
Nunca neguei que o filme é eficiente no que pretende e o Thiago, como morador na vida real da favela do Vidigal, soube convencer a gente do trabalhão que eles tiveram para filmar. Fiquei até curiosa para ver o making-off.
Bem, só posso desejar sucesso para os dois e que o nosso trabalho de divulgação do filme surta algum efeito. Porque se depender da minha boa vontade, todo mundo teria acesso irrestrito ao cinema, principalmente, ao brasileiro.
É isso, amigos.

05/06/08

13.5.08

Fôlego demais

Kim Ki-Duk não tem um perfil cinematográfico dos que me agrada. Ao contrário, assisti Fôlego, sua mais recente produção, imaginando que não iria gostar. Sinto muito pelos meus pré-conceitos em relação ao cinema coreano, mas fico satisfeita em dizer que foi uma tentativa com a maior das boas intenções. Estava esperando tudo de pior de Fôlego, mas não estava preparada para seu caráter novelesco ao extremo.
A sinopse é: história de uma mulher que, em crise conjugal, decide iniciar um romance com um assassino suicida no corredor da morte. A verdade é que Ki-Duk força um romântico delicado, sublime mas cai numa historia irritantemente brega e constrangedora. Digo constrangedora porque manja aquelas dancinhas tipicas do Youtube que nós, ocidentais, choramos de rir daquelas orientais malucas? Então, tem isso. Ah, ok, eu sou uma ocidental preconceituosa. Qualquer filme oriental me parece brega - com algums exceções de terror japoneses.
As metáforas são fáceis ou vazias. A simbolização das estações do ano e as dancinhas de Yeon tornam o enredo até infantil. Os personagens de Ki-Duk tem uma carga de solidariedade acima do normal. O maior exemplo é o do marido que leva a mulher para trai-lo com um presidiário no corredor da morte. Afinal, o cara precisa de um motivo pra viver, não é? Qual o problema de emprestar a mulher e ficar esperando no carro por ela terminar o trabalho? Isso que eu chamo de corno manso. E a gente assiste e fica pensando o quanto irreal seria essa troca de carinho que Ki-Duk apresenta nas prisões coreanas. Até em briga os caras brigam em tapinha, fora a troca de carícias constantes. Definitivamente, isso não ocorre no Brasil.
São monólogos e linguagens não verbais demais para 89 minutos. O silêncio incomoda. Em parte pela falta de espontaneidade na narrativa e dos personagens. Mas, principalmente, pela falta de envolvimento que tive com o filme. Mesmo em cenas pretensamente românticas e agradáveis. Quando Yeon diz a Jang Jin, o prisioneiro suicida, o quanto os olhos deles são bonitos, a única coisa que consegui pensar foi: "Mas como assim?! Todos orientais tem olhos iguais, não?"
Alguém precisa avisar a Ki-Duk que não precisa forçar tanto para ser original. Fôlego não é nada humilde. Fica aparente que suas pretensões tendem ao cult e ao grande. Ele não assume o que é, mas tenta ser o que não é. Enfim, sufoca. Exige o fôlego que eu não tenho.




Se você conseguir suportar essa cena, talvez tenha fôlego para o resto do filme.

4.5.08

"Quer fazer Deus rir? Conte-lhe os seus planos para o futuro".

Em O Sonho de Cassandra, Woody Allen volta aos seus indícios de tragédia grega, como em Poderosa Afrodite. Cassandra foi uma servidora de Apolo com dons proféticos, em cujas profecias ninguém acreditava por conta de uma maldição. E a incredibilidade de suas previsões levaram a queda de Tróia. Woody Allen, como sempre, é uma boa dose de alta cultura com um humor negro de dar inveja.
Sinopse: Terry (Colin Farrell) e Ian (Ewan McGregor) são dois irmãos que passam por uma situação inusitada ao conhecer a misteriosa atriz Angela Stark (Hayley Atwell). Ian fica perdidamente apaixonado pela bela jovem que acaba de chegar em Londres em busca de riqueza. Como estão passando por problemas financeiros, eles decidem aceitar uma proposta criminosa. Porém, a situação foge de controle quando as coisas não saem como planejado (Do Yahoo!Cinema)
Na verdade, nem acho que Atwell tenha um papel tão importante assim no enredo. Sua atuação é, definitivamente, bastante envolvente. O filme é muito mais sobre as diferenças éticas entre dois irmãos e seus conflitos internos e externos. Contanto, ler isso na sinopse não animaria muita gente. Eu admito que na sinopse a única coisa que chamou a atenção foi o nome do Woody Allen. E só. (Que, na verdade, não é "só").
A estética do filme é simples, mas não chega a ser broxante. Isso porque a exploração do relaciomento entre Ian e Terry, levando em conta suas ligações como irmãos e suas contestações como pessoas, é feita no velho e agradável estilo woodyalleano. As viradas ao longo da trama e a excelência da dramaturgia são alguns dos pontos fortes do filme.
É notável que a Europa vem saudando o cinema de Woody Allen com muito mais dignidade do que os EUA. E o lado cômico do diretor tem dado um espaço maior ao drama. Pois o drama do filme é mantido pelo assassinato, assim como em Shakespeare e em Match Point. Mas aqui o assassinato não é um fim mas um meio. A visão pessimista de Allen é o que me ganha. E seu talento em juntar elementos humanisticamente simples e verdades dificilmente relatadas. Nesse caso, quando a situação é urgente, acaba-se por aceitar o que antes era inaceitável.
O Sonho de Cassandra é o terceiro filme consecutivo de Woody Allen filmado em Londres. Mas fica evidente que não deixa de ser aquele humor negro woodyalleano novaiorquino sobre os anseios mais profundos das pessoas. Sinceramente, achei o filme muito mais Crimes e Pecados e Hannah e suas irmãs.
Da próxima gostaria de ver Woody Allen na tela, como o próprio Woody Allen. Nada desses alter-egos. As risadas ficam mais garantidas. E Scarlett Johansson, de quebra, não faria nada mal. A gente fica na espera de Vicky Cristina Barcelona então. Que não tem Allen, mas tem sua musa. E a minha musa. (Porque eu a havia escolhido antes dele. E isso prova o quanto temos em comum. Além de algumas outras coisinhas).

Woody Allen com cara de "Puta mundo injusto, meu!"

Esperamos mesmo é que o Woody Allen viva até os 100 anos, no mínimo, e continue fazendo um filme por ano. Pois estamos preparados para seus sucessos e fracassos. Como é a vida.
(E que a Scarlett desista logo dessa história de cantar. Afinal, pra que isso, meu deus?)